Fernando Pessoa
EROS E PSIQUE
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Acho tão Natural que não se Pense
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
A Espantosa Realidade das Cousas
A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
AO QUINTO IMPÉRIO
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa-- os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
Emissário de um rei desconhecido
Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me desdém
Por este humano povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou.
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas há ! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...
Saiba mais em:
http://omj.no.sapo.pt/
Esta página é dedicada a Fernando Pessoa.
[1888]
Junho - No dia 13, nasce Fernando António Nogueira Pessoa, ás 15:30pm. É portanto do signo de Gémeos. O parto ocorre no quarto andar esquerdo do n.º 4 do Largo de São Carlos em Lisboa. Os seus pais são Maria Magdalena Pinheiro Nogueira, natural da Ilha Terceira, Açores, de vinte e seis anos e Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, de trinta e oito anos, funcionário público do Ministério da Justiça e crítico musical do "Diário de Notícias". Vivem com eles a avó Dionísia, doente mental e duas criadas velhas, Joana e Emília.
Julho - Fernando Pessoa é baptizado no dia 21 na Igreja dos Mártires, no Chiado, em Lisboa. Os seus padrinhos são a sua Tia Anica (D. Ana Luísa Pinheiro Nogueira, sua tia materna) e o General Chaby. A razão porque lhe é dado o nome de Fernando António está relacionada com dois factores: 1º O dia do seu nascimento, dia 13 de Junho, é dia tradicionalmente consagrado a Santo António na cidade de Lisboa. 2º Os Pessoas reclamavam uma ligação genealógica a Fernando de Bulhões, que viria a ser companheiro de São Francisco de Assis com o nome de Frei António.
[1893]
Janeiro - Nasce o irmão Jorge.
Julho - Ás 5 horas da manhã do dia 24, Joaquim de Seabra Pessoa, seu pai, morre vitimado por tuberculose, em Lisboa. A noticia necrológica é publicada no «Diário de Notícias» de 24 de Julho de 1893.
Outubro - A mãe de Pessoa é obrigada a fazer leilão de parte da mobília a fim de se mudar para uma casa mais modesta, o terceiro andar do n.º 104 da Rua de São Marçal, em Lisboa.
[1894]
Janeiro - Morre o seu irmão Jorge, que ainda não fizera um ano.
Neste mesmo ano Pessoa cria o seu primeiro heterónimo, Chavalier de Pas, facto relatado pelo próprio a Adolfo Casais Monteiro, numa célebre carta de 13 de Janeiro de 1935 em que fala longamente sobre a origem dos heterónimos.
É ainda em 1894 que a mãe de Fernando Pessoa conhece o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, África do Sul.
[1895]
Julho - Tem a data do dia 26 a sua primeira poesia, uma quadra intitulada À minha querida mamã. O comandante João Miguel Rosa parte para a África do Sul.
Dezembro - A mãe de Pessoa casa por procuração, na Igreja de São Mamede em Lisboa, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul português em Durban, colónia Inglesa do Natal.
[1896]
Janeiro - No dia 7, é concedido passaporte à mãe e a Fernando Pessoa. Partem então para a África do Sul, na companhia de um tio-avô, Manuel Gualdino da Cunha. Viajam no navio Funchal até à Madeira e depois no paquete Inglês Hawarden Castle até ao Cabo da Boa Esperança.
Outubro - Nasce a irmã Henriqueta Madalena.
[1897]
Neste ano, Pessoa faz a instrução primária na escola de freiras irlandesas da West Street. Neste mesmo instituto, faz a primeira comunhão.
[1898]
Outubro - Nasce a irmã Madalena Henriqueta.
[1899]
Abril - Ingressa na Durban High School, onde permanecerá três anos. Revela-se um bom aluno. É provável que tenha, durante este período, sofrido a influência do director do liceu, W. H. Nicholas, que era um grande conhecedor da literatura inglesa.
Neste mesmo ano, cria o heterónimo Alexander Search.
[1900]
Janeiro - Nasce o irmão Luís Miguel.
[1901]
Junho - É aprovado com distinção no seu primeiro exame. Neste mesmo mês morre a sua irmã, Madalena Henriqueta. Começa nestes meses a escrever as primeiras poesias em inglês.
Agosto - Vem a Portugal, com a família, de férias. No navio em que viajam, o paquete König, vem o corpo da sua irmã falecida. Em Lisboa mora com a família em Pedrouços e depois na Avenida de D. Carlos I, n.º. 109, 3º. Esquerdo.
[1902]
Janeiro - Nasce, em Lisboa, o seu irmão João Maria.
Maio - Vai com o padrasto, a mãe e os irmãos à Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna. Escreve a poesia Quando ela passa.
Junho - Regressam todos a Durban: a mãe, o padrasto, os irmãos e a criada Paciência que viera com eles. Fernando Pessoa fica em Lisboa.
Setembro - Fernando Pessoa volta sozinho à África do Sul no vapor alemão Herzog.
Neste mesmo ano, matricula-se na Commercial School. Tenta escrever romances em inglês.
[1903]
Novembro - Culminam os estudos de Fernando Pessoa, que estudava de noite na Commercial School contemporaneamente estudando disciplinas humanísticas de dia, no exame para admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança. A sua classificação é medíocre, mas entre 899 candidatos é-lhe atribuído o prémio «Queen Victoria Memorial Prize» pelo melhor ensaio de estilo inglês.
[1904]
Fernando Pessoa ingressa novamente na Durban High School onde frequenta o equivalente a um primeiro ano universitário. Aprofunda a sua cultura, lendo os clássicos ingleses e latinos. Escreve poesia e prosa em inglês, surgindo os heterónimos Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher.
Agosto - Nasce a sua irmã Maria Clara.
Dezembro - Publica no jornal do liceu um ensaio crítico com o título Macaulay. Faz o «Intermediate Examination in Arts» na Universidade, com bons resultados. Mas com este exame terminariam nos seus estudos na África do Sul.
[1905]
Agosto - No dia 28 parte sozinho para Lisboa a bordo do vapor Herzog. Seria agora um regresso definitivo à sua pátria, na verdadeira acepção de que regressava à terra de seu pai. Em Lisboa fica algum tempo na casa da Tia Avó Maria Cunha, em Pedrouços. Depois vai viver com a Tia Anica, irmã da sua mãe, na Rua de São Bento, n.º 19, 2.º Esquerdo. Continua a escrever poesia em inglês.
[1906]
Matricula-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Começa a escrever páginas para um diário que será sempre errático e ocasional.
Outubro - A mãe e o padrasto vêm a Lisboa de férias e Fernando vai viver com eles na Calçada da Estrela, n.º 100, 1.º.
Dezembro - Morre, em Lisboa, a sua irmã Maria Clara.
[1907]
Com o regresso a Durban da sua família, Fernando Pessoa vai viver com a Avó Dionísia e as duas Tias Avós maternas na Rua da Bela Vista à Lapa, n.º 17, 1.º. Entretanto desiste da Faculdade e começa a ler os filósofos gregos e alemães, bem como os decadentes franceses.
Agosto - Morre a sua avó Dionísia, que lhe deixa uma pequena herança. Com ela, Pessoa vai a Portalegre comprar material para montar uma tipografia em Lisboa. Instá-la de facto, na Rua da Conceição da Glória, 38 e 49, a «Empresa Ibis - Tipográfica e Editora», que no entanto mal chega a funcionar.
Pessoa recusa a oferta de bons lugares, porque as obrigações de um horário fixo o impediam de realizar a sua obra literária.
[1908]
Fevereiro - São assassinados o Rei D. Carlos e o Príncipe herdeiro.
Pessoa vive primeiro na Rua da Glória, n.º 4, r/c. Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro para escritórios comerciais. Muda-se, neste mesmo ano, para um quarto alugado no Largo do Carmo, n.º 18, 1.º. Descreve, em notas autógrafas, as influências que começa a sentir de autores portugueses como Antero, Junqueiro, Nobre e Cesário Verde. Inicia a escrever o Fausto.
[1910]
Escreve poesia e prosa, em português, inglês e francês. Sofre influência dos simbolistas franceses e de Camilo Pessanha.
Outubro - No dia 5 é proclamada a República.
Dezembro - É fundada, no Porto, a revista «A Águia».
[1911]
Pessoa aceita traduzir para português uma Antologia de Autores Universais, dirigida por um editor americano e destinada a ser publicada no Brasil.
[1912]
Janeiro - É fundada, no Porto, o movimento da «Renascença Portuguesa». A «A Águia», dirigida por Teixeira de Pascoaes, torna-se um órgão desse movimento.
Abril - Estreia literária de Pessoa, com a publicação em «A Águia» do seu artigo A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada. Seguido em Maio por Reincidindo... Os dois artigos criam uma grande polémica.
Outubro - Sá-Carneiro parte para Paris, onde se inscreve na Sorbonne. Inicia-se a correspondência entre os dois amigos. Novembro - Pessoa publica, em três números seguidos de «A Águia», o ensaio A Nova Poesia no seu Aspecto Psicológico. No mesmo mês muda-se para a casa da Tia Anica, na Rua de Passos Manuel.
[1913]
Período intenso de criação. Colabora em diversas publicações. Escreve Epithalamium, Hora Absurda, o drama estático O Marinheiro. Este ano é também importante como período de intensa discussão e tertúlia com os jovens artistas da geração de Pessoa, que costumavam frequentar cafés em Lisboa.
[1914]
Sá-Carneiro regressa a Portugal. Pessoa continua a sua colaboração com diversas publicações.
Março - O dia 8 é para Pessoa o seu «Dia Triunfal». Como ele relata a Adolfo Casais Monteiro, na famosa carta de 13/1/1935 em que fala da génese dos heterónimos: "(...) acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca poderei ter outro assim.". Surgem no êxtase, primeiro o Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, «O Mestre»; depois a Chuva Oblíqua de Fernando Pessoa; seguido do aparecimento dos discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos (este com a Ode Triunfal).
Junho - Surge a primeira poesia assinada por Ricardo Reis.
Fernando Pessoa muda-se com a Tia Anica para a Rua Pascoal de Melo. Escreve fragmentos da Teoria da República Aristocrática. No Outono, começam as reuniões na cervejaria Jansen, à Rua Victor Cordon, do grupo de que sairá «Orpheu».
Novembro - A Tia Anica parte para a Suiça, com a filha e o genro. Pessoa abandona a casa da Rua Pascoal de Melo, atravessando de seguida uma crise depressiva. Escreve para o Livro do Desassossego de Bernardo Soares, um seu outro heterónimo. Acaba por romper com o grupo da «Renascença Portuguesa».
[1915]
Primeira versão de Antinous.
Março - Sai o primeiro número de «Orpheu», com colaborações importantes de Pessoa.
Pessoa aluga um quarto na Rua D. Estefânia. Colabora em «O Jornal», na rubrica Crónica da vida que passa.
Maio - Publica o artigo O Preconceito da Ordem.
Junho - Saí o segundo, e último, número de «Orpheu». Pessoa é agora director.
Julho - «A Capital» publica um artigo contra o grupo de «Orpheu». Campos retalia com uma carta dirigida ao director do jornal.
Setembro - Sá-Carneiro, já novamente em Paris, comunica a Pessoa que não há dinheiro para o número 3 de «Orpheu» poder ser publicado. As provas deste número, no entanto, chegam a ser completadas.
Dezembro - A mãe de Pessoa adoece, em Pretória, com uma apoplexia.
[1916]
Abril - Publica o poema Hora Absurda. No dia 26, ás 8 horas e 20 minutos, Sá-Carneiro suicida-se em Paris, no Hotel de Nice, ingerindo 5 frascos de estricnina. As causas do suicídio estariam certamente relacionadas - mesmo que essa fosse apenas a maior das causas - com as dificuldades económicas que o afligiam. O último bilhete para Pessoa diz: "Um grande, grande adeus do seu pobre Mário de Sá-Carneiro". Pessoa, numa carta à Tia Anica datada de 24 de Junho de 1916, diz ter sentido mediunicamente a grande crise por que passava Sá-Carneiro em Paris.
Pessoa muda agora habitualmente de habitação. Frequenta quartos alugados na Rua Antero de Quental, na Rua Almirante Barroso e na Rua Cidade da Horta.
Dezembro - Publica os Passos da Cruz.
[1917]
Portugal intervém na Grande Guerra, suscitando comentários escritos de Pessoa.
Abril - Almada Negreiros anuncia o futurismo ás massas, numa conferência, no dia 14, no Teatro República intitulada Ultimatum futurista ás gerações portuguesas do século XX.
Novembro - Pessoa colabora no «Portugal Futurista».
Com A. Ferreira Gomes e o Engenheiro Geraldo Coelho de Jesus, Pessoa abre um escritório de comissões e consignações na Rua de S. Julião, 45, 2.º. Passa a viver na Rua Bernardim Ribeiro.
[1918]
Abril - Morre Santa-Rita Pintor (nome por que era conhecido o pintor Guilherme de Santa-Rita, amigo de Pessoa, um dos elementos precursores do modernismo - a que Pessoa também pertencia por direito próprio - em Portugal). A sua obra é queimada, por respeito à sua última vontade.
O escritório de representações é trespassado.
Setembro - A crítica inglesa analisa os poemas ingleses de Pessoa. O «Times» e o «Glasgow Herald» publicam artigos de crítica sobre os volumes Antinous e 35 Sonnets.
Outubro - Morre Amadeo de Sousa Cardoso, amigo de Pessoa, vitimado pela gripe espanhola.
Dezembro - É assassinado em Lisboa o Presidente Sidónio Pais, no qual Pessoa tinha visto o novo Sebastião. Depois da morte de Sidónio, Pessoa passa a considerá-lo como mais um dos falsos D. Sebastião na história nacional.
Abre-se, com o assassinato uma grave crise política. Pessoa mora na Rua Santo António dos Capuchos.
[1919]
Pessoa escreve os Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro, que vão aparecer com a data fictícia de 1913-1914, por coerência diacrónica com a biografia do heterónimo, morto em 1915.
Outubro - Morre no dia 5 o seu padrasto, em Pretória.
Pessoa, morando na Avenida Gomes Pereira, dedica-se à ensaística política. Publica na «Acção», os artigos Como Organizar Portugal e A Opinião Pública.
[1920]
Publica numa revista inglesa.
Fevereiro - Conhece, no escritório «Félix, Freitas e Valladas», Ophélia Queiroz, que ia a responder a um anúncio. Pessoa era primo e amigo do sócio Freitas e por isso frequentava o escritório.
Março - É datada de 1 de Março a primeira carta, de resposta, de Fernando Pessoa a Ophélia Queiroz. O namoro começa com esta carta, mas no entanto Pessoa, ao longo de algumas semanas, desde o encontro inicial, já fazia a corte a Ophélia, tendo-a inclusive beijado "apaixonadamente, como um louco".
A mãe e os irmãos de Pessoa regressam a Portugal. Pessoa vai viver com eles numa casa da Rua Coelho da Rocha. Por esta altura, Pessoa concorre, com o nome de A. A. Crosse, nos concursos do «Times», talvez tentando o golpe de sorte que lhe daria os recursos necessários para casar com Ophélia.
Outubro - Atravessa uma grande crise psíquica. Pensa mesmo em internar-se.
Novembro - Interrompe a sua relação com Ophélia. Pessoa diz na carta de ruptura, datada de 29 de Novembro de 1920, que o seu destino pertence a "outra Lei", "subordinado (...) à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam".
[1921]
Funda a Editora «Olisipo», onde publica os seus English Poems I e II e English Poems III e a Invenção do Dia Claro de Almada Negreiros. No mesmo ano surge em Lisboa a «Seara Nova», que tem em António Sérgio, Raul Proença, Aquilino Ribeiro e Jaime Cortesão os seus elementos fundadores.
[1922]
Pessoa colabora com assiduidade na revista «Contemporânea», de José Pacheco. A Editora Olisipo publica a 2ª edição das Canções de António Botto.
[1923]
A obra Sodoma Divinizada de Raul Leal (Henoch) é publicada pela Olisipo. Logo de seguida é alvo de um ataque cerrado da Liga dos Estudantes de Lisboa. A obra é apreendida, assim como as Canções de António Botto. Álvaro de Campos reage, publicando os opúsculos Sobre um Manifesto de Estudantes e Aviso por Causa da Moral.
Julho - Assina o protesto de intelectuais portugueses contra a proibição censória do Mar Alto de António Ferro.
António Botto publica Motivos de Beleza, com uma nota de Pessoa.
[1924]
Falece o General Henrique Rosa.
Outubro - Sai o primeiro número da revista «Athena», que Pessoa dirige com o pintor Ruy Vaz e para a qual colabora.
[1925]
Fevereiro - A «Athena» cessa a publicação com o seu número de Fevereiro.
Março - No dia 17, morre a mãe de Fernando Pessoa, em Lisboa.
Mário de Saa publica o volume A Invasão dos Judeus, no qual Pessoa é uma das figuras analisadas.
[1926]
Janeiro - Inicia-se a publicação da «Revista de Comércio e Contabilidade», que Pessoa dirige com o seu cunhado, o Coronel Francisco Caetano Dias e para a qual colaborará com diversos artigos.
Maio - No dia 28 há um golpe militar que põe fim à Primeira República, instaurando a ditadura.
Agosto - Pessoa regista a patente para um «Anuário indicador sintético, por nomes e outras quaisquer classificações, consultável em qualquer língua».
[1927]
Março - Sai o primeiro número da revista «Presença».
Abril - No terceiro número da «Presença», José Régio reconhece em Pessoa o Mestre da nova geração.
Junho - Primeira colaboração de Pessoa na «Presença».
[1928]
António de Oliveira Salazar é nomeado Ministro das Finanças. Pessoa colabora em diversas publicações. Em conjunto com José Pacheco, Mário Saa, António Botto e outros, funda a «Solução Editora».
[1929]
Setembro - No dia 2, Fernando Pessoa oferece a Carlos Queiroz, seu amigo e sobrinho de Ophélia, uma fotografia sua que o retratava bebendo um copo de vinho no Abel Pereira da Fonseca. Ophélia acha graça à fotografia e pede uma cópia para si. Fernando Pessoa manda-lhe uma com a dedicatória: "Fernando Pessoa. Em flagrante delitro". Assim se reacende a relação sentimental entre os dois.
Outubro - Data de 11 deste mês, a primeira carta de Pessoa a Ophélia, nesta segunda fase do namoro. É uma carta de resposta à que Ophélia lhe mandara em agradecimento do envio da cópia pedida.
O crítico e amigo de Pessoa, João Gaspar Simões, dedica 20 página do seu livro Temas ao estudo da obra do poeta. É o primeiro estudo crítico sobre a poesia de Pessoa.
[1930]
Setembro - No dia 2 chega a Lisboa o Mago Aleister Crowley. Por se ter atrasado por causa do nevoeiro, dispara a Pessoa, que nunca tinha visto antes: "Por que diabo me mandou você um nevoeiro?". A estadia de Crowley é aproveitada para encenar o desaparecimento deste na Boca do Inferno, em Cascais.
É um intenso período de criação heterónimica.
[1931]
Março - Data de 21 deste mês a última carta de Ophélia a Pessoa. Dá-se por isso nos primeiros meses de 1931 a efectiva e terminal interrupção da relação sentimental entre os dois.
[1932]
Setembro - Apresenta uma candidatura ao lugar de conservador-bibliotecário do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, em Cascais, motivado por dificuldades económicas. No entanto não seria ele o escolhido pelo Presidente da Câmara, mas sim o pintor Carlos Bonvalot
[1933]
Atravessa nova crise psíquica. No entanto, é um período de grande criatividade crítica e ortónima.
[1934]
Faz o prefácio ao livro Quinto Império, de Augusto Ferreira Gomes. Publica a Mensagem.
[1935]
Janeiro - Escreve uma carta extensa a Adolfo Casais Monteiro onde explica a génese dos heterónimos.
Fevereiro - Defende as associações secretas num artigo publicado no «Diário de Lisboa».
Na Primavera vem a Portugal, em viagem de núpcias, depois de quinze anos de ausência, o irmão Luís Miguel. Pessoa deixa-se fotografar com a família em diversas ocasiões, nomeadamente diante do Mosteiro dos Jerónimos em Belém.
Novembro - Por volta do dia 27 ou 28, Pessoa encontra-se pela última vez com João Gaspar Simões e Almada Negreiros. Dias antes, Pessoa tinha tido uma grave crise hepática que o fizera perder os sentidos na casa de banho da casa da Rua Coelho da Rocha, tendo o médico avisado que mais um cálice de aguardente seria fatal. No dia 29 é internado no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde lhe é diagnosticada uma cólica hepática. Ao morrer pede os óculos. Morre no dia 30, ás 20 horas e trinta minutos, estando presentes o Dr. Jaime Neves e os amigos Francisco Gouveia e Vítor da Silva Carvalho.
Dezembro - No dia 2 é levado a enterrar o seu corpo. Ás onze horas o caixão saiu da capela do Cemitério dos Prazeres. Repousará no jazigo da sua avó (Rua 1, Direita, n.º 4371). Acompanhavam a procissão fúnebre amigos do poeta, entre os quais: Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo Guisado, Almada Negreiros, João Gaspar Simões, António Botto e Carlos Queiroz. Representava a família o Capitão Caetano Dias. Junto do jazigo, Luís de Montalvor proferiu um breve elogio fúnebre, improvisado e sentido. A noticia necrológica da morte de Fernando Pessoa foi publicada no «Diário de Notícias» de 3/12/1935.
No centenário do seu nascimento, em 1988, os seus restos mortais foram transladados para o Mosteiro dos Jerónimos.
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