quinta-feira, 1 de julho de 2010

Theilard de Chardin

Theilard de Chardin
Hino à Matéria

Bendita sejas tu, áspera Matéria, gleba estéril, duro rochedo, tu que não cedes a não ser pela violência, e nos forças a trabalhar se quisermos comer.
Bendita sejas tu, poderosa Matéria, mar violento, paixão indomável, tu que nos devoras, caso não te acorrentemos.
Bendita sejas tu, poderosa Matéria, Evolução irresistível, Realidade sempre nascente, tu que a cada momento fazes explodir as nossas molduras, obrigando-nos a perseguir sempre mais longe a Verdade.
Bendita sejas tu, Matéria universal, Duração sem limites, Éter sem margens – Tríplice abismo das estrelas, dos átomos e das gerações -, tu que transbordas e dissolves nossas estreitas medidas, revelando-nos s dimensões de Deus.
Bendita sejas tu, Matéria impenetrável, tu que, estendida em todo lugar entre nossas almas e o Mundo das essências, nos deixas lânguidos com o desejo de penetrar o véu sem costura dos fenômenos.
Bendita sejas tu, Matéria mortal, tu que, ao te dissociares um dia em nós nos introduzirás, forçosamente, no próprio coração daquilo que existe.
Sem ti, Matéria, sem os teus ataques, sem as tuas arrancadas viveríamos inertes, estagnados, pueris, ignorando a nós mesmos e a Deus. Tu feres e curas, resistes e dobras, arruínas e constróis, acorrentas e libertas, - Seiva de nossas almas, Mãos de Deus, Carne de Cristo, Matéria, eu te bendigo.
- Eu te bendigo, Matéria, e te saúdo, não como te descrevem, reduzida ou desfigurada, os po ntífices da ciência e os pregadores da virtude – um monte, dizem eles, de forças brutais ou de apetites baixos -, mas tal como me apareces hoje, em tua totalidade em tua verdade.
Eu te saúdo, inesgotável capacidade de ser e de Transformação, onde germina e cresce a Substância eleita.
Eu te saúdo, potência universal de aproximação e de união, através da qual se liga a multidão das mônadas e na qual convergem todas sobre a rota do Espírito.
Eu te saúdo, fonte harmoniosa das almas, cristal límpido de onde é tirada a nova Jerusalém.
Eu te saúdo, Meio Divino, carregado de Potência Criadora, Oceano agitado pelo Espírito, Argila amassada e animada pelo Verbo encarnado.
- Crendo obedecer ao teu irresistível apelo, os homens, muitas vezes por amor a ti, se precipitam no abismo exterior dos gozos egoístas.
Um reflexo os engana, ou um eco.
Agora vejo bem.
Para te alcançar, Matéria, é preciso que, partindo do contato universal com tudo o que se move cá embaixo, sintamos pouco a pouco desvanecer entre nossas mãos as formas particulares de tudo o que seguramos, até que permaneçamos às voltas com a única essência de todas as circunstâncias e de todas as uniões.
Se quisermos ter a ti, é preciso que te sublimemos na dor, depois de te haver vuluptuosamente agarrado em nossos braços.
Tu reinas, Matéria, nas alturas serenas onde os Santos imaginam te evitar – Carne tão transparente e tão móvel que não te distinguimos mais de um espírito.
Eleva-me para o alto, Matéria, pelo esforço, pela separação e pela morte – eleva-me lá onde, enfim, será possível abraçar castamente o Universo.
Embaixo, sobre o deserto que voltara à tranqüilidade, alguém chorava: “Meu Pai, meu Pai! Que vento louco o arrebatou!”
E por terra jazia um manto.

HINO AO UNIVERSO, Teilhar de Chardin, Pierre, 1881-1955, Ed. Paulus, 1994 (tradução Ivo Storniolo), pgs. 72-74. Original de Éditions du Seuil, Paris, 1961.


Presença de Deus no Mundo

Oremos:
Ó Cristo Jesus, vós trazeis verdadeiramente em vossa benignidade e em vossa Humanidade toda a implacável grandeza do Mundo. – E é por isso, por essa inefável síntese realizada em Vós, pelo fato de que a nossa experiência e o nosso pensamento jamais teriam ousado reunir para os adorar; o Elemento e a Totalidade, a Unidade e a Multiplicidade, o Espírito e a Matéria, o Infinito e o Pessoal, - é pelos contornos indefiníveis que essa complexidade dá à vossa Figura e à vossa Ação, que o meu coração, tomado pelas realidades cósmicas, se entrega apaixonadamente a Vós!
Eu vos amo, Jesus, pela Multidão que se abriga em Vós, e que ouvimos com todos os outros seres murmurar, orar, chorar. . . quando nos estreitamos contra Vós.
Eu vos amo pela transcendente e inexorável fixidez de vossos desígnios, pela qual a vossa doce amizade se matiza de inflexível determinismo e nos envolve implacavelmente nas dobras de sua vontade.
Eu vos amo como a Fonte, o Meio ativo e vivificante, o Termo e a Saída do Mundo, mesmo natural, e do seu Devir.
Centro em que tudo se encontra e que se distende sobre todas as coisas para reconduzi-las a si, eu vos amo pelos prolongamentos do vosso Corpo e da vossa Alma em toda a Criação, por meio da Graça, por meio da Vida, por meio da Matéria.
Jesus, doce como um Coração, ardente como uma Força, intimo como uma Vida – Jesus, em quem posso me fundir, com quem devo dominar e me libertar -, eu vos amo como um Mundo, como o Mundo que me seduziu – e sois Vós, agora vejo bem, sois Vós que os homens, meus irmãos, mesmo aqueles que não crêem, sentem e perseguem através da magia do grande Cosmo.
Jesus, centro para o qual tudo se move, dignai-vos preparar para nós, para todos, se possível, um lugar entre as mônadas escolhidas e santas que, despegadas uma por uma do caos atual pela vossa solicitude, se agregam lentamente em Vós na unidade da Terra nova.
(La Vie cosmique, 23 de março de 1916)

HINO AO UNIVERSO, Teilhar de Chardin, Pierre, 1881-1955, Ed. Paulus, 1994 (tradução Ivo Storniolo), pgs. 77-78. Original de Éditions du Seuil, Paris, 1961.

Pierre Teilhard de Chardin nasceu em Sarcenat, França, em 1º de maio de 1881. Filho de um aristocrata rural interessado pela geologia, dedicou-se desde a juventude ao estudo dessa matéria, que não interrompeu nem mesmo quando suas inquietações espirituais o levaram a ingressar na Companhia de Jesus, em 1899. Depois do noviciado, ordenou-se em 1911, mas preferiu fazer a primeira guerra como padioleiro a servir do capelão. Por bravura na frente de batalha, recebeu a Legião de Honra. Posteriormente lecionou no Instituto Católico de Paris. Em 1923, realizou a primeira de suas numerosas expedições científicas à China, onde residiu durante a Segunda Guerra Mundial. Participou do descobrimento do Sinanthropus pekinensis, o homem de Pequim, e ainda incorporou importantes observações ao conhecimento da geologia e dos fósseis do pleistoceno na Ásia. Os estudos científicos conduziram Teilhard de Chardin a uma profunda meditação sobre o problema da evolução, origem de sua obra mais importante, ´O fenômeno humano´, publicada postumamente em 1955. Em seu pensamento, a evolução evidente do universo material, que parece esmagar o homem e sua consciência, visa, na realidade, a realizar a passagem da matéria ao espírito, do menos consciente ao mais consciente. Ciência e religião, longe de se contradizerem, conduzem ambas à perfeição intelectual. As implicações morais e religiosas desse sistema foram desenvolvidas numa série de obras como ´O meio divino´ (1958) e ´O futuro do homem´ (1959). Várias de suas teses foram recebidas com reservas tanto pela autoridade católica. Teilhard de Chardin morreu em Nova York, em 10 de abril de 1955.-- por Marcelo Cid
www.submarino.com.br/books_bio.asp

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