domingo, 26 de setembro de 2010

Leve, como uma coisa

"Leve, como uma coisa que começasse, a maresia da brisa pairou sobre o Tejo e espalhou-se
sujamente pelos princípios da Baixa. Nauseava frescamente, num torpor frio de mar morto.
Senti a vida no estômago, e o olfacto tornou-se-me uma coisa por detrás dos olhos. Altas,
pousavam em nada nuvens ralas, rolos, num cinzento a desmoronar-se para branco falso. A
atmosfera era de uma ameaça de céu cobarde, como a de uma trovoada inaudível, feita de ar
somente.
Havia estagnação no próprio voo das gaivotas; pareciam coisas mais leves que o ar, deixadas
nele por alguém. Nada abafava. A tarde caía num desassossego nosso; o ar refrescava
intermitentemente.
Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta
hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar,
para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar
em mim deixou descoberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro.
Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações
supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com o ar e o rio, para
dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase
simples e ampla do livro de Job, "Minha alma está cansada de minha vida!"
* * *

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